sábado, 17 de outubro de 2009

Flórida ou o kitsch é o mal



SE você está inseguro,com medo de ser considerado cafona,eis a solução:nomeie a sua casa de kitsch.Ao fazer isto se livrará de um peso na consciência.Além disso,provocará nos iniciados, aquele hum....de aprovação.A reação dos não iniciados será de inveja e terão que amargar a ignorância em silêncio.
O kitsch é mais ou menos isto.O cafona levado a sério ou o brega consciente.Os puristas negarão o kitsch até morrer, e afirmarão, citando alguém muito famoso que o kitsch é o mal.Um mal cultural e estético,de um século que perdeu a pureza e a ingenuidade da cultura popular,e não adquiriu a racionalidade e sofisticação da cultura erudita.
Se você não resiste àquela canção do Roberto,chora vendo novela e se emociona diante da luz difusa do abajour lilás,você já foi engolido pelo monstro maléfico e dele só escapará,no exato momento que descobrir que muito do kitsch nacional é importado.Acreditar no aval internacional é outra atitude brega,não acreditar também,já que não dá para negar a globalização.Assim, relaxe e goze,neste mar de coisas que vêm da China ou do Paraguai e lembre-se: nenhum objeto possui um valor absoluto,mas um valor relativo,que será dado por você,no contexto da sua casa e da sua vida.

Oriente


A seda escorrega entre os dedos e se nega a fazer a curva,desfia-se e resiste às agulhadas que vão atrás da forma. Um corpo,um copo de leite,lavoura arcaica. Tento exprimir o nada,só as formas e as cores de centenas de casulos,nós e laçadas,unindo pedaços. Singapuras(com s ou c?)Vestido oriental foi parar na parede.
Vou me afastando devagar do objeto que está a se formar. Preciso indicar continuidade,processo, inacabamento. Isso não vai terminar nunca,enquanto as mãos trabalham a cabeça se esparrama e fica permeável.Dá para ouvir o barulho das sinapses. Que nó.

Sampa

West End



Se eu soubesse o que é arte não misturaria chita com libertyJá não sou suficientemente ingênua para ser chamada de naif,nen inserida dentro de qualquer escola ou instituição,que me desse um nome.Preciso de um lugar, de um nome,

Ucrania


Tese: A arte conceitual ou o segredo da metáfora. Uma abordagem semântico- semiótica da episteme pós moderna.

Hipótese:Só vê o ovo quem o já tiver visto. Todo texto (segundo Umberto Eco) é um tratado de semiótica,ou dito de outra forma,todo texto contém em si,as regras de seu deciframento.Clarice Lispector,resumiu com poesia, no título acima citado, em negrito e itálico,o espírito da coisa: a coisa só existe,depois de nomeada.Agora eu puxo uma nota de rodapé e tento enfiar o meu palito no bolo dos outros.

Rodapé: foi um sonho.Não sei se por efeito de drogas, ou se meu inconsciente está mais relaxado (ou colonizado) e deixou passar muitos detalhes,sutilezas surpreendentes.Foi assim que entendi a arte conceitual.

Instalação: arranha céu na avenida Paulista(altura média),heliporto,uma escada de trocar lâmpadas e ovos, centenas de ovos.Eu estava em cima da escada,tentando equilibrar um ovo na mão.Aí começou o desfile laudatório: motoboys in Black,recepcionistas de saltos altíssimos,putas do baixo Augusta,travecos da USP,o pessoal da cracolandia,médicos do HC,bancários, banqueiros,cabeleireiros,passantes e sobreviventes.Todos ali para reverenciar a mulher que montou a instalação-perfomace e segurava um ovo na mão.Assim que chegaram os fotógrafos e a televisão,os ovos começaram a ser atirados na minha intrépida figura, amarrada em uma túnica laranja budista.Todos esperavam a grande revelação da mulher que tinha descoberto o segredo da metáfora.

Digressão:antes da revelação eco-mística e da transcendência imanente de todo o ovo, antes de ser frito,atendendo ao meu discreto sinal,alguém puxa a escada. Me vi voando e enxerguei meu corpo no asfalto em decúbito dorsal. The end. Acordo, preciso fazer xixi,volto para cama,fecho os olhos e ainda me vejo mortinha da silva,com um sorriso idiota no canto da boca.

Revelação: levanto faminta. Faço uma omelete e como com garfo e faca a minha alucinação.Estou feliz porque fui coerente. A única maneira de revelar o segredo da língua e os mecanismos da metáfora é a morte.O zero de significado. O nada, o vazio sublime de cada palavra desnudada de significados,de místicas, imagens clichês e preconceitos. A pretensão conceitual da arte contemporânea só se realiza se o autor morrer. Morri antes de me tornar cínica e acreditar que uma escada é uma escada e uma rosa é uma rosa.

Conclusão: Sem dúvida, o que aconteceu ontem à noite na avenida Paulista,coloca o nosso país em outro patamar no mundo da arte contemporânea. As fotos e vídeos da instalação,assim como pedaços do manto da artista já valem fortunas. Recolheram-se os órgãos para doação ( exigência da artista). O resto das vísceras e alguns membros serão exibidos (no formol) em importantes museus.

Investigação: a polícia está até hoje atrás de um tal de Wittgenstein. Dizem que foi ele que puxou a escada.

Cidade Maravilhosa



Lugar de papel

Do papelão ondulado,corto o quadrado perfeito.Preciso da geometria para controlar a enxurrada de sensações,conter a água que me afoga e hidrata .Só mato a sede mergulhando no líquido, só a geometria me contém, na curva e nos cortes que insistem em sagrar. A cor disfarça a melancolia,convoca a infância,orna a trilha que sobe o morro e desce para o mar. Geografias,memórias tortas que se ajustam ao pedaço, ao fragmento deste discurso amoroso. O corte cirúrgico é mais preciso que o corte epistemológico. Não consigo enxergar a minha cidade. Lugar de papel, embalado para presente.

shopping-center ou intestinos





Shopping-Center ou intestinos

Pintar com pano, deslizar a fita como em um bordado, ponto cheio. Encher o espaço,esconder a estrutura, cobrir a superfície. Para que? Nada,nada,nada,nada.Alguém sabe da dor de preencher espaços,esconder o vazio dessa multidão que passeia por mim, desses corredores iluminados, dessas vitrines de aço escovado, a luz chapada,sem sombra, sem mistérios.

Labirintos racionalizados, pasteurizados,informatizados.Sanitários assépticos,privadas inteligentes com censor de merda.Pode confiar,suas vísceras agradecem,suas mãos estão livres e limpas. Pura escatologia.