sexta-feira, 16 de outubro de 2009

16 polvo (reproduzo as críticas que recebi e o meu diálogo com anônima )


Você jamais conseguirá.Não importa o que, onde , nem quando.Vê se entende porra. Qualidade de vida é o caralho. Não há um nicho de mercado para pessoas assim.

Assim como?

Medianas, medíocres, medrosas. Ficam sempre no meio do caminho. Deixam se arrastar pela história dos outros. Não têm estilo porque carecem de ousadia. Você é um caso clássico. Uma patologia confirmada e publicada em revistas especializadas respeitáveis.Pesquisas comprovam que noventa por cento da humanidade é composta de analfabetos funcionais (retirando a África) Ou outros dez por cento são analfabetos de pai e mãe. Você não se submete a nenhuma categoria. Não funciona. Parece que não tem pai nem mãe. Informe, disforme. Sem classificação, classe social, ideologia. Que diabo de ser é esse ? Maleável e escorregadio como um polvo e rígido como uma pedra?

Um polvo agarrado a um penhasco.Me diga será que essa imagem é um clichê?

Depende do penhasco. Da fraga tenebrosa. Garganta do demônio fumando Marlboro.Pare de fugir para terra de ninguém. Hoje você não me escapa. Faço você engolir um polvo inteiro in su própria tinta. Não pense que vai me levar com esse discurso apócrifo-relativista-metafísico.

Não quero levá-la para lugar nenhum, esta é a questão. Se existisse um lugar, eu ia correr no parque.Vá a merda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

15.liturgia ou mistérios gozosos



Sessenta homens cantando em latim:

omnis
mundi creatura
Ereis sacerdos
in aeternum......
Speculum mundi
Splendor mirabilis
Cum venarabilis
Coitus malancolae
In nomine patris et filiae.........

Êxtases místicos
Função penitencial
Calafrio metafísico
ou
Ajoelhou tem que rezar.

14.retratos


Recebi uma mensagem de Penélope Simpática (mineira 39anos) residente em Parelheiros na grande São Paulo. Contou-me que não possui computador e que escreve no ônibus todos os dias, nas idas e nas voltas do trabalho na Praça da Sé. Sua inspiração são as passageiras.Pediu-me que publicasse.PS

Fátima. Fazia tricô,fazia crochê, bordava,costurava e não dava ponto sem nó. Um dia furou o dedo com a agulha e bebeu o sangue que escorria. Continuou a costurar e a furar os dedos para chupar o próprio sangue. Só assim o trabalho rendia.

Gilda. Cabia a ela as tarefas mais penosas do dia.Procurar a felicidade na imagem ideal. Medidas, padrões,tabelas. Se repetir cem vezes um mesmo movimento,ele se tornará automático e a manterá sempre em movimento.É preciso manter os músculos aquecidos, o coração batendo, a panturrilha dura ,as pernas flexíveis e os nervos à flor da pele . Era assim que corria nos parques e praias da vida.Até ser engolida por um tsunami, o movimento em si.

Clarice Que mistérios tem Clarice? Coleciona baratas. As guarda sobre um painel forrado de espelho, para que (as)possa olhar por baixo.Todos os dias ao chegar do trabalho, corre para ver a coleção. Cada inseto tem nome, lugar e ordem no espaço. Tudo ali segue uma classificação rígida, que só ela é capaz de entender. Claro enigma. No mais, Clarice almoça, janta e cumpre seus deveres. Mas, jamais toque nas baratas que o espelho lasca.

Dora. Ela foi agredida,humilhada e mutilada.Mas, persiste, insiste e repete sempre as mesmas coisas. Foi a maneira que encontrou de projetar sua imagem no filme que faz de si mesma. Um filme bonito em preto e branco,cheio de sombras e contrastes sutis. O realismo é cinza, o modernismo é branco e Dora é negra.Não vê as outras cores por coerência total com a estética e a ética que a leva a repetição.Seu mundo,além de silencioso é granulado de cinzas e off whites. Certo dia um ponto vermelho apareceu no canto esquerdo. Foi quando ela menstruou e morreu.

Esmeralda Não tinha olhos verdes. Mas essa era a sua cor preferida.Vestido verde alface,sapato verde abacate,bolsa verde bandeira,meias verde limão.Insistia na cor da esperança e da ecologia.Todos já a conheciam de longe.Lá vem a mulher de verde. Percebeu que em um mundo de cegos era preciso criar uma identidade forte,capaz de desfazer as ambigüidades.O que não viu,foi que aos poucos todos estavam verdejantes.Sua cor virou praga e símbolo.Esmeralda era daltônica.

13 concha


Do mar trouxe uma concha imensa.Era só colocar no ouvido e escutar o rumor das ondas. Depois de algum tempo se começa a sentir o cheiro da maresia. Com um pouco de esforço, pode-se até ,se afogar no mar de memórias, que pelos tímpanos, invade o corpo seco e infla a pele,exatamente ,como o náufrago de camiseta listrada. Azul e branco.
A concha jaz incólume no centro da mesa. Alguns a olham estarrecidos ou fingem não enxergá-la. Objeto de mau gosto,obsceno e totalmente deslocado.A muito aprendi que a forma não segue a função,mergulhei no universo kitsch e catei o lixo ocidental feito na China. É essa a minha arte,efêmera e metafísica. Meu bestiário é movido pela contradição. Sem ambigüidade não há arte nem beleza. É preciso ser muito macho para expor objetos tão naifs e pretender a transcendência. Eu sou.

12. barquinho

Sobrevivi . Quase um século de existência, morando de frente para o mar.Da minha casa avistava os navios entrando na baía de Guanabara. Lá vem um barquinho carregado de: gente, projetos,bananas, as bagas do Ceilão. Até hoje não entendo as bagas, as fragas e o cheiro da fábrica de sardinha.
Um dia vi um corpo imenso de um homem boiando no mar.Usava uma camiseta listrada de azul e branco e parecia uma balão inflável .Perguntei quem era e me responderam, não é ninguém. Ninguém ? São os outros ou somos nós para os outros?
Lá vai o barquinho,la nave va e que medo de morrer afogada. Não morri afogada no oceano Atlântico, não morri de morte matada,mas sonhava toda noite com o náufrago. O mar batia sem dó na porta da minha casa e ia me afogando ao poucos,me marcando com salitre e maresia. Era preciso poetizar o mar e transformá-lo em deserto. Ancoro meu barquinho na estante da sala e deixo que a poeira faça seu trabalho.
Preferi o deserto ao canto das sereias e cardumes prateados. O mundo é um deserto cheio de formigas,baratas e outras pestes. Agora, diante do monitor de plasma sinto a aridez do mundo virtual. Perdida nos HTMLS da vida, busco o interlocutor que compartilhe comigo essa visão desértica e deixo o vento me conduzir pelo meio das coisas, que precisam de nomes. Começo a nomear e classificar os objetos que me cercam.

11.. espelhos





Penso, vivemos no deserto da incomunicabilidade por excesso de informação e especialização. Parece que existe um espelho em cada monitor e uma incapacidade de olhar para fora. Digito, deleto,salvo.Salve-se quem puder.Mergulho de cabeça nos blogs e procuro, incessantemente,pessoas que compartilhem comigo um singelo pixel.
Não tenho nada para fazer marketing da minha pessoa.. Já apelei para o grotesco,o hilário e o escatológico. Já pousei nua,já expus minhas rugas,verrugas e outros pontos cardeais. Me olho no espelho veneziano esperando que a pompa bizantina revele sinais desconhecidos.
Talvez a ruga vertical, que cava uma fenda na face,dividindo-a em dois hemisférios, me sirva de marca.Marca da contradição que me divide em orientes e ocidentes. Cartografia que exibe sem pudor as linhas do tempo e a memória do não. Não pode,não combina,não existe,não sinta, não arrote,não respire. Sobreviva.

10. relógio




Sem fio,sem dor, o sistema operacional, opera em mim um sentimento escatológico de prazer. Tudo entra e sai,funciona e flui. Há um certo prazer sensual na ponta dos dedos e nos olhos que perseguem na tela os ícones,os jogos e textos,tudo em tempo real. Sem dúvida há um processo de infantilização dos humanos,uma leveza e um colorido de parque de diversões. A tecnologia põe um sorriso de dente de leite, na face amarga da vida. Sem tempo, sem lugar, livres,leves e soltos,somos turistas pueris.
São Google virou um vício. Já não conseguia dar um passo sem consultar a www. O que mais poderia desejar uma pessoa com limitações físicas importantes,fora do mercado de trabalho e da vida ordinária,sempre avessa ao contato direto com seus semelhantes?
Desde que aprendi a falar, descobri um imenso buraco entre o dito, o visto e o vivido. Não me contentava com o vocabulário, sempre incapaz de chegar lá.Comecei a mentir, inventar e imaginar paisagens que contivessem tudo. Palavras que mobiliassem o meu canto, que fixassem o momento no relógio da parede. Arranco os ponteiros do relógio e deixo-o ali, parado no tempo.